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quarta-feira, 27 de abril de 2016

ESTRESSE, TABU E HIERARQUIA: POR QUE OS POLICIAIS PRATICAM TANTOS SUICÍDIOS?


Infelizmente tivemos mais um caso de suicídio, envolvendo um policial militar aqui no Ceará, o texto abaixo destrincha o que vem ocorrendo no Rio de Janeiro e  que pode ser aplicado aqui no estado, assim como em outros locais do país.
Além do risco de morrer em combate, policiais também têm uma chance maior de se suicidar. Longas jornadas de trabalho, afastamento da família, desvalorização profissional e falta de acompanhamento psicológico contribuem para que isso ocorra.
Lançado no final de março, o livro “Por que Policiais se Matam?”, do Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (Gepesp) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro em parceria com a PM fluminense, aponta que policiais militares do Rio de Janeiro tiveram em 2009 uma chance 6,6 vezes maior de cometer suicídio do que a média da população do Estado. O problema se repete em outras polícias do país, mas é um tabu. E a falta de notificação dos casos sugere que é ainda mais grave, aponta o trabalho.
Realizado a partir de parceria entre cinco psicólogas da Polícia Militar e pesquisadores da Uerj de diferentes áreas, o trabalho afirma que 10% dos 224 policiais militares entrevistados pelo estudo tentaram suicídio, e 22% pensaram em fazê-lo. “Apesar da gravidade do problema, o suicídio entre policiais não tem recebido a devida atenção do poder público nem das organizações policiais internacionais e nacionais”, diz o livro.
58 Policiais militares se suicidaram no Estado do Rio de Janeiro entre 1995 e 2009, segundo dados da Polícia Militar.
55 Desses suicídios ocorreram nos dias de folga. Segundo o estudo do Gepesp com a Polícia Militar, é provável que haja subnotificação de casos.

A partir da investigação de 26 casos de suicídio, a pesquisa traçou o perfil das vítimas. Eles são no geral praças (sargentos, cabos e soldados), casados, têm entre 31 e 40 anos e trabalham em unidades operacionais. Veja abaixo algumas das conclusões sobre porque o suicídio é um problema tão comum entre os policiais e o que pode ser feito sobre a questão.

Por que policiais se matam

Tabu ao redor do suicídio

Uma das principais dificuldades para lidar com o problema do suicídio policial é o tabu ao redor da questão. Policiais militares com problemas emocionais ou psiquiátricos sofrem preconceito, e o suicídio é tratado como uma vergonha dentro e fora das corporações. “A própria família tem vergonha, independente de ser policial ou não”, disse ao Nexo Dayse Miranda, organizadora do livro “Por que Policiais se Matam?”.


Admitir o suicídio também envolve uma questão econômica. Quando um policial morre em combate, sua família recebe uma pensão equivalente à aposentadoria completa. Já famílias de policiais suicidas recebem a pensão relativa ao tempo durante qual o policial trabalhou. Elas também não ganham seguro de vida. A pesquisa obteve relatos de colegas que alteraram as cenas em que policiais suicidas foram encontrados mortos como forma de maquiar o que ocorreu. Outros se expõem excessivamente em combate, uma forma de morrer maquiando os próprios suicídios.

Escalas de trabalho e trabalho extra

As escalas de trabalho dos policiais prejudicam seu descanso, afetam sua saúde psicológica e os afastam das próprias famílias e outras redes de apoio que poderiam auxiliá-los em momentos de crise. Há vários modelos de escalas. Uma das mais detestadas é a que prevê trabalho por 12 horas com descanso por 24, seguida por mais 12 horas trabalho e descanso por 48 horas.
O problema, segundo Dayse Miranda, é que policiais da PM do Rio de Janeiro têm sido levados a trabalhar nessa segunda folga através do chamado Regime Adicional de Serviço (RAS). Trata-se de uma espécie de hora extra opcional que, por causa da falta de efetivo, está se tornando, na prática, obrigatória, afirma.
Isso é agravado pelo fato de que muitos policiais moram longe da área em que atuam. “Tem policiais que demoram três horas para chegar na UPP em que vão passar a noite inteira acordados com uma arma”, diz.
A pressão sobre o efetivo policial piora durante grandes eventos ou acontecimentos políticos, o que aumenta o tempo trabalhado. “Na época das manifestações [de junho de 2013], as escalas eram de 24 horas e os policiais saíam no dia seguinte”, conta Dayse. Mesmo aqueles da área administrativa – com frequência levados a ocupar esses postos porque têm problemas de saúde -, passam por isso. “Se o policial tiver que trabalhar três dias direto, ele vai”, diz. Ela também destaca que esse esforço não é reconhecido pela sociedade.
Assim como a polícia carioca, a Polícia Militar de São Paulo também criou um dispositivo por meio do qual policiais podem trabalhar além do tempo habitual. Elaborada em 2009 pela gestão de Gilberto Kassab (PSD), a Operação Delegada é um convênio entre a Prefeitura e a Polícia Militar através do qual policiais em horários de folga podem trabalhar para a administração municipal para obter renda extra, se desejarem.


Hierarquia rígida

De acordo com Dayse Miranda, os policiais militares não encaram a hierarquia como um problema, mas se ressentem do abuso de autoridade. Entre os relatos que colheu estava o de um policial que sofreu uma “bicuda” de seu superior. A pesquisadora relata, ainda, o caso de um policial que disse ao comandante que não estava bem, morava longe do trabalho e tinha problemas na família. “O chefe deu ordem de prisão. Ele foi ao banheiro e se matou na própria unidade”, diz.
“O comando não entende que você tem que tratar bem um policial porque ele lida com pessoas difíceis, tensas e tem que lidar com um ambiente difícil. Não pode transformar a vida do policial militar em um inferno”, diz o coronel reformado José Vicente da Silva Filho. Ele cita como exemplo o exército americano, que tem focado em dar um tratamento mais humano aos soldados.
Dayse ressalta que abusos não são um problema exclusivo da Polícia Militar do Rio de Janeiro, e sim algo generalizado entre as corporações.

Falta de estrutura de apoio

O policial militar Miguel usava medicamentos para transtornos de humor receitados por um amigo médico, mas não recebia nenhum tratamento psicológico ou psiquátrico. Ele brincava de roleta-russa em casa na frente da mulher e dos filhos e mencionou “ter vontade de dar um tiro na cabeça” no trabalho, mas não recebeu nenhum atendimento específico. Seu suicídio é um dos casos relatados no livro “Por que Policiais se Matam?” – o nome é fictício.
Esse não é um episódio é isolado. Praticamente todas as polícias brasileiras sofrem com falta de atendimento psicológico, em particular o especializado em suicídio. A Polícia Militar do Rio de Janeiro é considerada bem servida em se tratando do número de psicólogos, quando comparada com outras corporações do país, ainda assim o efetivo é pequeno. São 95 psicólogos para atender 40 mil policiais militares na ativa e na reserva. E apenas dois psiquiatras, um voltado para os policiais e uma outra, especializada em crianças, para atender os filhos dos agentes.

Acesso a armas de fogo

Dados de 2000 do Sistema de Informação de Mortalidade apontam que 51,5% dos suicídios no Brasil foram por enforcamento. Armas de fogo ficam em segundo lugar, com 19,6% do total.
Entre os policiais, no entanto, a proporção é diferente. Entre os 22 casos acompanhados pela pesquisa para o livro, 14 mortes foram causadas por armas de fogo.
Dayse Miranda defende a criação de programas voltados exclusivamente para policiais que apresentam sinais de que pensam em se suicidar. Ela cita como exemplo positivo o da Polícia Militar de São Paulo, que criou o Programa de Prevenção de Manifestações suicidas em 2004.

Retirar a arma de policiais com problemas psicológicos

O livro recomenda que policiais com risco de suicídio tenham suas armas temporariamente apreendidas – inclusive com a alteração do regulamento interno da polícia militar.

Um tratamento mais humano na hierarquia policial

De acordo com Dayse Miranda, quem comanda a polícia precisa tratar seus subordinados de forma mais humana. “Temos uma história de um sargento que tentou seis vezes suicídio e foi afastado do cargo. No final de 2013 o seu comandante fez a diferença, deu a ele de volta o seu cargo de comando. Isso resgatou a sua autoestima e fez com que voltasse a ser respeitado por colegas”, conta Dayse Miranda.

Diminuir o tempo de trabalho

Segundo a pesquisadora, também é necessário garantir o aumento do efetivo policial para que escalas desumanas não sejam empregadas, principalmente em grandes eventos, como as Olimpíadas do Rio de Janeiro.
Além de permitir descanso e ajudar a diminuir o estresse, oferecer jornadas mais curtas permite que os policiais tenham mais tempo para se aproximar da família e dos amigos, fortalecendo sua rede de apoio.


Fonte: Nexo Jornal

7 comentários:

Anônimo disse...

Acho que muitos não se adaptam ao militarismo. Subjugados dentro dos quartéis e imersos em seu próprio mundo, a tendência é entrar em depressão e adoecer mesmo. Entendo que a nossa policia precisa ser mais socializada, mas o militarismo é uma barreira a isso. Lendo o livro "Militarismo, um sistema arcaico de segurança pública", escrito por um ex policial cearense, dá pra se ter uma melhor noção sobre a temática. Um abraço amigos

Anônimo disse...

Nossos guerreiros nos protege. E quem protege nossos guerreiros?

Anônimo disse...

A adaptação ao militarismo é algo que passa antes de tudo na base da formação do indivíduo como cidadão e que passa antes de mais nada pela base familiar e escolar, além da formação moral. Depois vem os objetivos que levaram o cidadão a ser um homem protetor da sociedade e compreender verdadeiramente seu papel e sua importância na sociedade.
Quanto a Subjugação dentro das entranhas dos quartéis faço saber que durante a formação militar os alunos tem um aprendizado adequado, porém nem sempre um aluno de formação é capaz de dimencionar a realidade que viverão, mesmo porque muitos deles encontram-se mergulhados na vontade de ser policial por necessidades e não por vocação.
por isso muitos deles mergulham na imensidão de seus pensamentos que os levam a um mundo de utopia, naturalmente muitos poderão entrar em depressão e sucumbir, Porém é bom lembrarmos que essas ocorrências poderão já existir inerte em seu interior, mas cabendo um estudo de caso mais aprofundado para verificar as verdadeiras causas.
Também fica claro que os militares da policia necessitam de uma vida mais humanizada e social, uma vez que vivem sitiados num mundo restrito ao seu serviços e sua própria vida social. neste contexto quero discordar que o militarismo seja uma barreira intransponível, apenas deve ser trabalhado através dos setores de ação social da corporação.
Por tudo isto desejo externar minha linha de pensamento, mesmo sendo eu necessitado de mais conhecimentos no que concer este assunto, todavia relato uma linha de pensamento de que todos nós e em todas as profissões temos dificuldades, mas que temos condições de superá-las. a maneira que passamos por obstáculos é muito pessoal, e cada um indivídou utiliza processos diferentes mais adequado a sua realidade e que muita vezes beira o desespero.

ATENCIOSAMENTE: J.A.S

Anônimo disse...

FAÇO O MESMO COMENTARIO QUE PRIMEIRO FEZ.

Dany disse...

A realidade é que eles nos protegem a todo e qualquer momento, e eles, quem os protegerás?Deveriam ser mais valorizados tantos pela sociedade como pelos seus superiores,todos são seres humanos,e pressão demais,nunca levará a um bom resultado.

Roberval disse...

Nosso heróis, na hora que precisamos é a eles que recorremos... sem falar que Deus defenda que eles parem, a sociedade vira um caos. Deus os protejam, vcs são nossos heróis.

Anônimo disse...

Sou um civil mas se eu fosse policial militar militar eu não estaria nem ai pra se alguém gostasse de mim ou não nesse mundo ninguém da nada pra ninguém mesmo eu ia era saber ganhar meu dinheiro andando de broz e hilux nas folhas beber curtir namora iuuupyyy. Foda se o resto. Parabéns guerreiros...