segunda-feira, 14 de outubro de 2013

VIOLÊNCIA: SEGURANÇA PRIVADA CRESCE 8% AO ANO NO CEARÁ

Enquanto as políticas públicas mostram fragilidades, as empresas privadas são uma alternativa

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, em sua última pesquisa sobre o tema, divulgada em 2012, que o Ceará lidera a sensação de insegurança dentre os Estados do Nordeste. O resultado da pesquisa reflete no comportamento de quem vive em Fortaleza, sempre temendo o perigo, que é, cada vez mais, iminente e parece estar em toda parte.

Enquanto as medidas de Segurança Pública não dão resultados, quem tem poder aquisitivo suficiente está terceirizando o serviço, contratando segurança privada para suprir necessidades de condomínios, estabelecimentos comerciais, veículos e até pessoal.

As empresas têm expandido seus serviços para atender a um mercado ainda maior, e já oferecem, pelo menos, 16 tipos diferentes de atendimento de segurança que incluem até escoltas para transportes de documentos, malotes, cargas e valores.

No Ceará, existe atualmente 65 empresas autorizadas pelo Ministério da Justiça a garantir a integridade física e patrimonial de seus clientes. Segundo dados do Sindicato de Empresas de Segurança Privada do Ceará (Sindesp) 13 mil vigilantes treinados estão cadastrados e exercem a função, em todo o Estado.

O diretor financeiro do Sindesp, Marcos Gualter, disse que o ramo está avançando na mesma proporção que cresce a economia do Estado, o que representa cerca de 8% ao ano. "Isto, porém, não representa um aumento na procura. O número de empresas cresce mais que o mercado", declarou.

Segundo Marcos Gualter, a maior parte das solicitações de quem procura por firmas autorizadas é voltada para segurança patrimonial - condomínios, repartições públicas, shoppings, agências bancárias e demais estabelecimentos comerciais.

O diretor do Sindesp lembrou que a segurança privada deve ser apenas uma linha auxiliar da segurança pública. Portanto, as atribuições desta, está limitada à atender somente o perímetro demarcado pelo terreno do contratante. Em casos de ocorrências em condomínios, por exemplo, o vigilante deverá se restringir a agir apenas no local, sem poder expandir seus procedimentos, sequer até a calçada.

Os civis têm reclamado os impostos que pagam. O tema foi um dos mais recorrentes nas manifestações que ganharam o País, em junho deste ano. Para o professor Fábio Paiva, da Universidade Federal do Ceará (UFC), estudioso do assunto, o correto seria que não se pagasse duas vezes por segurança, saúde educação. "Isto é uma obviedade muitas vezes negligenciada pelos nossos Governos, mesmo diante dos apelos populares".

Segurança pessoal

Uma modalidade desponta como desafio para empresas de segurança, no Estado, a escolta de pessoas e de material de alto valor que a elas pertença. O serviço é desafiador, porque exige preparação especial dos profissionais que irão atuar na área.

Em Fortaleza, algumas empresas apostam na capacitação de agentes e oferecem serviços como acompanhamento e assistência a personalidades, executivos e autoridades; avaliação de roteiros e áreas de riscos; agentes com domínio de outras línguas; seguranças com cursos de direção defensiva, abordagem, fuga e proteção de patrimônio.

Os clientes, que são chamados VIPs, requerem o serviço para si e para a família, e ainda para escolta de malotes e documentos. O intuito de quem paga as altas somas é estar livre da violência, que chega à maioria esmagadora dos cearenses. Para tanto, uma das empresa que vende segurança pessoal, diz em seu site, que seus funcionários deverão, entre outras coisas, identificar ameaças intencionais ou não; e dimensionar as necessidades que serão aplicadas ao planejamento e definição da abrangência da proteção.

Marcos Gualter, que também é dono de uma empresa de segurança, disse que o mercado ainda não é muito aberto para este tipo de serviço, que costuma custar caro, mas que a demanda já existe por aqui.

"A procura é restrita. Não é sempre que encontramos alguém que procure por segurança pessoal, porque é um serviço especializado. Os custos são mais altos, visto que exige uma preparação extra".

MÁRCIA FEITOSA
REPÓRTER

Rotina na Capital é ditada pelo medo

"A insegurança altera a vida dos moradores de Fortaleza de diversas formas. A rotina das pessoas passa a ser construída em torno do medo. Sua vida e da sua família tem que ser mediada, controlada e calculada pela possibilidade de que não sofra uma ação violenta que coloque em risco você e seus entes queridos. Perde-se então, uma série de outras coisas em termos de vida social, prazer, bem estar, conforto e liberdade. Deixa-se de lado a sua autonomia para se estar submetido a dispositivos de regulação e controle social cada vez mais individualizados".
A fala do sociólogo Luiz Fábio Paiva, pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (LEV/UFC), sobre a falta de segurança e a sensação de medo coletivo e subjetivo diz muito sobre Fortaleza, onde se vive, cada vez mais, refém destes sentimentos.

Segundo ele, não há um receita para que este problema seja resolvido a curto prazo, mas deve-se pensar em saídas baseadas na igualdade social. "Não há uma saída, uma coisa que possa ser feita e pronto. Isso não existe, embora se venda essa ideia com determinados interesses. É preciso que seja feito um esforço coletivo, para que a vida em sociedade não seja boa apenas para um pequeno número de privilegiados. É preciso que as forças econômicas e os esforços do Estado estejam em consonância com os desejos da população em geral", considerou o pesquisador.

Para Fábio Paiva, os índices de assaltos à agências bancárias, à pessoas e à residências, apontam para um aumento considerável do crime que irá, sem dúvida, repercutir na sensação de segurança das pessoas.

"A medida que muitas pessoas são vítimas e têm histórias para contar, estas experiências acumuladas e narradas repercutem no cotidiano, na forma como as pessoas refletem sobre o seu dia a dia, diante de situações que, em tese, não deveriam afligi-las. É bem comum, por exemplo, perceber nos sinais de trânsito, as pessoas tensas por se sentirem que ali é um momento em que podem ser abordadas e efetivamente assaltadas".

Servilho anunciou mudança
A Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) vem passando por reformulações. A maior delas foi a mudança do gestor da pasta, no último dia 13 de setembro de 2013. O novo secretário, é o delegado federal, Servilho Paiva.

Em visita ao Sistema Verdes Mares, logo após ser empossado, Servilho disse que os órgãos de Segurança Pública do Ceará precisam de reforço e repaginação. Para ele, é necessário que exista um trabalho integrado entre as Polícias, que prevê troca de informações e esforço conjunto. "Precisamos de um reforço na Polícia, precisamos requalificar o homem para trabalhar mais proativamente".

O secretário considera que grande parte dos crimes contra à pessoa, como homicídios e assaltos, estejam ligados ao tráfico de drogas e por isto, acredita que uma forte repreensão às drogas irá auxiliar na redução dos índices de violência, que até agora se mostram desanimadores. Medidas preventivas e cautelares poderiam ser um fator para auxiliar neste sentido, segundo ele.

"Temos comunidades que estão sendo mais violentadas. Os culpados estão identificados, bem como suas áreas de atuação. Existe uma inteligência de dados que serão levados para uma folha de papel. A partir daí, faremos requerimentos aos juizes pedindo que aquelas figuras identificadas como aterrorizadoras, tenham sua prisão preventiva decretada. Sendo concedidas as ordens de prisão, as Polícias poderão cumprir, de forma a limpar aquele território da criminalidade. Estas medidas cautelares darão suporte a ação de retirar das ruas criminosos de conduta reiterada", considerou.

Sobre a atuação do Ronda do Quarteirão, que vem sendo questionada pela sociedade, Servilho Paiva disse que este núcleo é uma fração da PM e que a reformulação deve haver em todos os sentidos. "A gente precisa mudar as características de todo o policiamento, seja a pé ou motorizado, para que ele seja mais proativo. A Polícia tem que realizar mais abordagens, que não podem ser aleatórias. Elas precisam ter sustentação em informações da inteligência".

Fonte: DN 

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